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22 de jul. de 2012

Um parto de blog

Antes de começar o blog, pensei: preciso informar de onde vim, pra onde vou, quem sou, o que quero, o que vai ser, etc. Vou escrever poesias? Vou fazer um diário online? Vou pesquisar assuntos interessantes e dar opiniões? Como, na minha cabeça, era necessário descobrir todas essas interrogações, escrevia apenas quando o texto seguia um padrão. Achei isso tão limitador, opressor, ditatorial que acabei ficando um tempo sem escrever. Eu mesma me impus este limite. Hoje, voltei, andei por aqui e fiz as mesmas perguntas. Só que, desta vez, veio um flash de lucidez com a resposta. E a resposta foi: não tem resposta :-)

Eu explico: não preciso dizer quem em sou - o que eu escrevo, opino, desabafo e enxergo, já o diz. Não preciso falar se sou uma pessoa interessante, que tem boas ideias. Só os textos vão dizer.

Nesse mundão dinâmico, plural, sem nexo necessariamente que é a internet, quem precisa ser linear ou fazer sentido? O que vale mesmo é poder compartilhar aqui os meus clicks. Textos? Poemas? Fotos? Whatever! Se nem o mundo funciona com lógica, o que dirá minha cabeça?

Decidido e não se fala mais nisso: aqui cada flash será um insight diferente, com ou sem sentido e sem nenhuma explicação. Então, sejamos livres!

Fiz força, doeu, suei, mas pari! Ufa!

17 de set. de 2010

Cantigas de traumatizar


Lembra daquelas cantigas que você cansou de ouvir quando era pequenininho, um ser indefeso, inseguro, em formação e cheio de medos como trovão, fantasmas, Saci, Minotauro, Cuca, mula-sem-cabeça e até palhaço?

Elas com certeza marcaram a sua infância. Eram cantadas pra você na hora de dormir, nas festinhas do colégio, nos teatrinhos e nos LPs - aqueles disquinhos coloridos de colocar na vitrola. Agora me diz: como crescer ouvindo essa trilha sonora sem se tornar neurótico?

Vamos analisar:

Boi, boi, boi
boi da cara preta
pega este menino
que tem medo de careta.

Isso é uma cantiga de ninar? O menino já tem medo de careta. Ao invés de tentarem ajudá-lo a enfrentar o medo, punem o menino incitando o boi a aterrorizá-lo.

Ô, jardineira, por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a Camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu.

Se liga na dramaticidade da cena: a pobre Camélia caindo do galho, dando seu último suspiro para desespero da jardineira. Que desgraça...

Ciranda , cirandinha,
Vamos todos cirandar...
O anel que tu me destes,
Era vidro e se quebrou.
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.

A pessoa recebe um anel falsificado, de quinta. Poderia ter sido recompensada com um beijo, um pedido de desculpas. Mas não: ainda perde o seu amor! Afinal, era pouco e se acabou.

Atirei o pau no gato tô tô
Mas o gato tô tô
Não morreu reu reu.

Maravilha! Uma criancinha fofa e inocente, ouvindo essas atrocidades...

O cravo brigou com a rosa,
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido,
E a rosa despedaçada.
O cravo ficou doente,
A rosa foi visitar,
O cravo teve um desmaio,
E a rosa pôs-se a chorar.

Relação supersaudável. Um sai ferido, a outra despedaçada. Depois o maldito fica doente, desmaia e ainda faz a rosa chorar.

Nana neném,
que 
a Cuca vem pegar
papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar.

Viu? Pode dormir sossegado, neném. Mamãe não vem, foi trabalhar, e papai está na roça. Você vai nanar sozinho e logo, logo, a Cuca vem pegar. Tranquilo?

Agora junta o boi assustador, a frágil camélia, o anel de vidro de quinta, o gato destroçado, o casal estressado e a criança solitária. Vamos combinar? Dá um prato cheio para o bom e velho Freud... ;-)


E, de repente, meu filho cresceu.

Hoje, vendo você desaparecer das minhas vistas, rumo a uma viagem internacional, sozinho, passei por uma avalanche de emoções e lembranças...